Sábado, 23 de Agosto de 2014

PAIR
Perda Auditiva Induzida por Ruído

Conceituação da Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora de Origem Ocupacional.
A Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR), relacionada ao trabalho, é uma diminuição gradual da acuidade auditiva, decorrente da exposição continuada a níveis elevados de pressão sonora. O termo Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora é mais adequado.
Assim conceituada, a PAIR em nada se assemelha ao trauma acústico, definido como perda súbita da acuidade auditiva decorrente de uma única exposição a pressão sonora intensa (por exemplo, em explosões e detonações), ou devido a trauma físico do ouvido, crânio ou coluna cervical.

Caracterização da PAIR
De acordo com o Comitê de Ruído e Conservação da Audição da American College of Occupational Medicine, e segundo o Comitê Nacional de Ruído e Conservação Auditiva, são características da PAIR:

  • ser sempre neurossensorial, por comprometer as células de órgão de Córti;
  • ser quase sempre bilateral (ouvidos direito e esquerdo com perdas similares) e, uma vez instalada, irreversível;
  • muito raramente provocar perdas profundas, não ultrapassando geralmente os 40 dB (NA) (decibéis Nível Auditivo) nas freqüências baixas e 75 dB (NA) nas altas;
  • a perda tem seu início, e predomina, nas freqüências de 6.000, 4.000 e/ou 3.000 Hz, progredindo lentamente às freqüências de 8.000, 2.000, 1.000, 500 e 250 Hz, para atingir seu nível máximo, nas freqüências mais altas, nos primeiros 10 a 15 anos de exposição estável a níveis elevados de pressão sonora;
  • por atingir a cóclea, o trabalhador portador de PAIR pode desenvolver intolerância a sons mais intensos (recrutamento), perda da capacidade de reconhecer palavras, zumbidos, que somando-se ao déficit auditivo propriamente dito prejudicarão o processo de comunicação;
  • cessada a exposição ao nível elevado de pressão sonora, não há progressão da PAIR. Exposições pregressas não tornam o ouvido mais sensível a exposições futuras; ao contrário, a progressão da perda se dá mais lentamente à medida que aumentam os limiares auditivos;
  • os seguintes fatores influenciam nas perdas: características físicas do agente causal (tipo, espectro, nível de pressão sonora), tempo e dose de exposição e susceptibilidade individual.
Do exposto, deduz-se que, para a caracterização da PAIR de origem ocupacional, é necessário que a perda auditiva se enquadre nas premissas estabelecidas pelo COMITÊ e, para o profissional que se propõe a realizar o diagnóstico etiológico da PAIR, assume importância capital considerar a intensidade e a característica do agente, bem como o modo de exposição. Exposição não significa apenas o simples contato entre o agente e o hospedeiro. Em saúde ocupacional, para que haja exposição, o contato deve acontecer de maneira, tempo e intensidades suficientes. Isto quer dizer que, para haver lesão, o nível elevado de pressão sonora de intensidade maior que 85 db(A) deve atuar sobre a orelha suscetível, durante oito horas diárias, ou dose equivalente, ao longo de vários anos. E este fato deve ser constatado, in loco, por quem vai estabelecer o nexo causal.

Fatores de Risco:
  • Fatores Ambientais
    É comum em condições normais de trabalho a coexistência de vários outros fatores, que podem agredir diretamente o órgão auditivo ou através da interação com o nível de pressão sonora ocupacional ou não ocupacional, influenciando o desenvolvimento da perda auditiva. Alguns, dentre estes fatores, merecem referência: agentes químicos: solventes (tolueno, dissulfeto de carbono), fumos metálicos, gases asfixiantes (monóxido de carbono); agentes físicos: vibrações, radiação e calor; agentes biológicos: vírus, bactérias, etc.
  • Fatores metabólicos e bioquímicos
    • » Diabetes mellitus e outras como Síndrome de Alstrom.
    • » Insuficiência adreno-cortical.
    • » Dislipidemias, hiperlipoproteinemias.
    • » Doenças que impliquem distúrbios no metabolismo do cálcio e do fósforo.
    • » Distúrbios no metabolismo das proteínas. Ex: distúrbios de melanina.
    • » Hipercoagulação.
    • » Mucopolissacaridose.
    • » Disfunções tireoideanas (hiper e hipotireoidismo).
  • Outros Fatores
    o constante de salicilatos (ototoxidade). Existência de perda auditiva comprovadamente por uso de substâncias ototóxicas (aminoglicosídeos, derivados de quinino e outros).
    História familiar de surdez em colaterais e ascendentes.
Diagnóstico Diferencial
  • » traumáticas (trauma acústico, traumatismo do crânio ou da coluna cervical, barotraumas);
  • » infecciosas (seqüelas de otite, viroses, lues, meningite, escarlatina, toxoplasmose etc.);
  • » ototóxicas (por uso de antibióticos aminoglicosídeos, diuréticos, salicilatos, citostáticos, tuberculostáticos);
  • » por produtos químicos (solventes, vapores metálicos, gases asfixiantes);
  • » metabólicas e hormonais (diabetes mellitus, autoimunes, renais, tiroideanas);
  • » degenerativas (presbiacusia, otospongiose, osteoartroses cervicais);
  • » neurossensoriais flutuantes (doença de Meniére, fístulas labirínticas, doença de Lermoyez, síndrome de Cogan);
  • » tumorais (tumores glômicos, neurinomas);
  • » do sistema nervoso central (esclerose múltipla, degenerações mesencefálicas, alterações bulbopontinas);
  • » hereditárias, congênitas e neonatais (algumas vezes de manifestação tardia);
  • » vasculares e hemáticas.
Tratamento
A Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora Ocupacional é uma lesão de caráter irreversível, não existindo nenhum tipo de tratamento clínico ou cirúrgico para recuperação dos limiares auditivos, sendo portanto a prevenção a principal medida a ser tomada antes de sua instalação e progressão. Prevenção:
  • Proteção Coletiva
    • » Intervenção sobre a fonte emissora, entre outros:
    • » modificações ou substituições de máquina e equipamentos;
    • » redução dos efeitos e forças de impacto;
    • » isolamento entre superfícies que vibram e dos dispositivos e máquinas que produzem as vibrações mecânicas que as excitam;
    • » redução da propagação do som intenso por meio da alteração das características de ressonância de painéis, da redução da amplitude das ressonâncias, utilizando materiais amortecedores e/ou enrigecedores, ou mesmo pela redução das áreas das superfícies irradiantes;
    • » modificações no processo de produção;
    • » manutenção preventiva e corretiva de máquinas e equipamentos;
    • » mudanças para técnicas menos ruidosas de operação.
    • » Redução do nível de pressão sonora na transmissão, entre outras:
    • » utilização das características de diretividade da fonte para obter uma orientação que ofereça alguma redução junto ao trabalhador;
    • » barreiras, silenciadores e enclausuramentos parciais ou completos podem reduzir a energia sonora;
    • » alteração das características acústicas do ambiente de trabalho pela introdução de materiais absorventes;
    • » assentamento com materiais anti-vibrantes, isolamento do posto de trabalho do local de transmissão da vibração.
  • Controle da Exposição
    • » Outra forma de prevenir os efeitos nocivos da pressão sonora elevada é a redução do tempo de exposição do trabalhador; podendo ser utilizados, dentre outros, os seguintes métodos:
    • » reposicionamento do trabalhador em relação à fonte de níveis elevados de pressão sonora ou do trajeto da transmissão durante etapas da jornada de trabalho;
    • » posicionamento remoto dos controles das máquinas;
    • » enclausuramento do trabalhador em uma cabina tratada acusticamente;
    • » diminuição do tempo de exposição durante a jornada de trabalho;
    • » revezamento entre ambientes, postos, funções ou atividades;
    • » aumento do número e duração de pausas.
  • Proteção Individual
    rioritariamente as medidas de proteção devem ter caráter coletivo. Os Equipamentos de Proteção Individual - EPI serão indicados nas seguintes circunstâncias:
    • » por intervalos de tempos restritos à execução de determinadas tarefas durante a jornada de trabalho, ou seja, em situações específicas onde o trabalhador ficará exposto a níveis elevados de pressão sonora por curto período estando o restante do tempo em ambiente que não ofereça risco à saúde;
    • » por período de tempo definido em caráter temporário, mediante acordo entre empregadores, sindicatos, comissões de fábrica e CIPA's, enquanto medidas de redução dos níveis elevados de pressão sonora estão sendo adotadas;
    • » quando houver indicação para o uso de EPI, como única opção viável para a redução do nível de pressão sonora elevada, devem ser observados os seguintes aspectos:
    • » a adequação do EPI ao trabalhador no que se refere às características do nível de pressão sonora, do conforto, e do tipo de função exercida, permitindo ao trabalhador a escolha, quando possível, do tipo de EPI adequado;
    • » o período de utilização, que deve ser durante todo tempo de exposição à pressão sonora elevada;
    • » o trabalhador deve receber informações sobre o uso adequado e a conservação dos EPI's;
    • » o uso dos EPI's descartáveis deve obedecer às recomendações técnicas do fabricante;


O ambiente de trabalho e a exposição a níveis elevados de pressão sonora devem ser controlados de modo que o trabalhador possa dar continuidade às suas funções sem prejuízo adicional à sua saúde, na impossibilidade impõe-se o remanejamento (ambiental e/ou funcional).

Sugestões - Recomendações
Levando-se em consideração a complexidade e importância do problema, é recomendável a sua abordagem por meio de ações coletivas dos agentes envolvidos, desde o próprio trabalhador, a empresa, instituições e sindicatos, dentro de suas atribuições, tais como:
1) Pela empresa, médico do trabalho ou médico responsável do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO (Portaria 24, de dezembro de 1.994 do MTb).

Considerando que são os responsáveis diretos pela saúde do trabalhador no aspecto preventivo e as particularidades que envolvem a presente patologia, requerendo pronta intervenção com a identificação do risco, às primeiras alterações audiométricas e sintomatológicas:
  • identificar as áreas de risco da empresa, com descrição detalhada dos postos de trabalho com as tarefas pertinentes a cada função, incluindo a descrição das ferramentas e ciclos do trabalho, tomando por base o Código Brasileiro de Ocupações (CBO), e informar os responsáveis, lembrando do perfil epidemiológico da doença e sobretudo no disposto na NR7 (PCMSO),O NR 9 (PPRA) e NR 15;
  • acompanhar cuidadosamente os trabalhadores submetidos ao risco de exposição a nível de pressão sonora elevado, procurando minimizar ou eliminar tal condição;
  • sendo confirmado diagnóstico de Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora Ocupacional, deve ser emitida a Comunicação de Acidente de Trabalho - CAT;
  • sendo detectada a Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora, o trabalhador deve ser, necessariamente, reavaliado pelo Programa de Conservação Auditiva (Anexo II). Caso este não exista, deve ser implantado;
  • a Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora, na grande maioria dos casos, não acarreta incapacidade para o trabalho. O trabalhador deve ter sua Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora Ocupacional notificada para fins de registro e vigilância e não necessariamente para o afastamento de suas funções laborativas. O ambiente de trabalho e o tempo de exposição a nível de pressão sonora elevado devem ser controlados de modo que o trabalhador possa dar continuidade às suas funções sem prejuízo adicional à sua saúde;
  • a presença de Perda Auditiva Neurossensorial por Exposição Continuada a Níveis Elevados de Pressão Sonora no exame audiométrico admissional não deve desclassificar o trabalhador para o exercício profissional, pois geralmente não interfere em sua capacidade laborativa
  • a minimização e a solução do problema serão obtidas pela prática de medidas preventivas nos locais e postos de trabalho, sob responsabilidade da empresa;
  • o médico do trabalho deverá manter atualizados os dados referentes às condições de saúde do empregado, principalmente no que tange as patologias ocupacionais.


(Texto extraído da Ordem de Serviço n° 608 MPAS/INSS - divisão de perícia médica)

Voltar